O gato da escola e a garota de preto.

12 novembro 2016

Não isso não se trata de uma história romântica, muito menos um conto.
Se trata de um relato.
Hoje seria mais um dia comum no meu trabalho, muita papelada, números e mais números, pouco tempo, pausa para respirar, de olho no computador...
Mais um dia lotado, todos muito ocupados e logo me dirigi para ajudar a atender todo mundo, meu chefe agradece e me direciona a um cliente, que me fitava com os olhos cravados em mim, não havia como desviar e eu estava indo naquela direção.
Tudo parecia muito estranho, ele estava com os olhos assustados, perguntei o que ele desejava, depois de uma longa pausa ele apenas me entregou alguns papéis. Ainda bem que eu já sabia o que fazer com os papéis, só não sabia o que fazer naquela situação.
Enquanto eu processava os seus documentos, aquele homem não parava de me encarar, depois seu olhar mudou, ele queria me dizer alguma coisa...
Não demorou nada, uma mulher passou pela porta do nosso estabelecimento, segurava uma criança pelos braços, grávida, parecia estar muito feliz com a gravidez, porém também parecia cansada, seu cabelo estava mal preso, as alças de seu vestido caiam sobre o ombro e os olhos estavam fundos, como alguém que precisava dormir imediatamente.
Rapidamente quele homem perdeu qualquer timidez que o detia, enquanto eu lhe devolvia os documentos, ele me disse com fraqueza "Oi, como você esta? nunca mais a vi, você esta diferente, que bom ver você de novo.". E eu vi, como há 10 anos atras, aquele rosto mudou naquele instante, eu sabia quem era aquele homem, eu tinha absoluta certeza de quem ele era, e o que me recordava com aquela voz...
Dei o meu sorriso de sempre, disse que estava bem, e agradeci, como faço com qualquer cliente.
A moça que estava esperando na porta, olhou firma para ele, logo o comprimento, e ele a beijou, disse que já estava de saída, ela disse "estou cansada", ele apenas seguiu porta a fora na velocidade de um trem. Ela o seguiu com um filho na mão, e outro na espera.
Emfim pude refletir do que se tratava aquilo e quem era aquele rapaz.
Há 10 anos atrás eu era uma garotinha diferente, tinha cabelos compridos e nunca os penteava, eram sempre bagunçados de pontas múltiplas e o liso da minha genética se camuflava em um frizz digno da idade da pedra, magrela como tábua, não tinha peito-bunda-não tinha nada, tampouco usava qualquer maquiagem, as unhas eram compridas com restos de esmaltes pretor por cima, as roupas, xiiii nem se fale, eram de 2 números maiores que o corpo, quando não eram herdados da irmã mais velha, eram compradas propositalmente maiores. As meninas não queriam como companhia, era estranha demais, com os meninos era pura diversão quem mais privilegiaria videogames sem se importar com o dever de casa. Com poucos amigos, algumas pessoas gostavam, as amigas que tinha eram incríveis e sempre me incentivavam. E em uma dessas vezes...
Havia um garoto, ex aluno da escola, ele fazia quele garoto badboy, aprontava todas, não se importava com nada, ele era dono do próprio nariz e eu logo me apaixonei, aquela independência toda me encantou. Mas eu tinha certeza que havia um abismo entre nós, meus fones de ouvido disfarçavam, mas minhas amigas não. Elas sabiam o quanto eu o admirava, afinal quem não, ele era um gato mesmo, todas as garotas também o queriam e eu jamais seria notada.
Na época nas noites de domingo os alunos costumavam se reunir na frente da escola, os mais velhos tomavam alguns drinks, eu só observava de longe, a minha turma não chegava nem perto. Porém em um daqueles dias minhas amigas estavam todas ali, reunidas, só me esperando, e me carregaram pra lá, e qualquer pessoa notava que havia uma peça fora do lugar, minhas roupas pretas e grosas coberta de correntes, e garotas dançando ao som automotivo. Minhas amigas disseram, "vai ser hoje, hoje você vai falar com ele, e ele não vai poder dizer não", eu estava prestes a desmaiar depois de muita recusa, eu não conseguiria falar nada, implorei que não, mas sem percebermos um outro amigo se aproximou dele, sim dele, o garoto mais gato daquela roda e jogou tudo pro alto.
"Ta vendo aquela garota ali, aquela ali (e ele se virou para mim), pois é, ela queria falar contigo, acho que ela esta afim de você, e ai?", a essa altura eu já não tinha mais pele, estava coberta por uma camada de um vermelho intenso da cabeça aos pés, eu não conseguia me mover, estava com os olhos arregalados e imóvel. E o que ele disse, bom ele disse "Quem? Aquilo ali, sério cara, quê que é isso, claro que não(risos), eu jamais ficaria com ela"...
O mundo se quebrou, via os pedaços daquele instante caírem no chão, eu não enxergava mais ninguém, só aquele sorriso de aversão a mim.
Minhas amigas me tomaram nos braços e viraram meu corpo, "Não liga pra isso ele é um babaca", "Eu não acredito que ele disse isso", "Ele vai pagar pelo que disse"...
Eu me achei a pessoa mais idiota do universo, ele sentiu horror a mim.
Não deu tempo de sofrer muito por isso, eu já tinha certeza que ele jamais me notaria, e quando notou comprovou tudo o que eu mesma pensava de mim, quem se importaria comigo, só alguém muito maluco pra querer qualquer relacionamento comigo. Mas uma coisa eu aprendi, ele não era tudo o que eu pensava, minha admiração acabou com a falta de respeito que ele teve ao próximo, a mim. Mas por anos lembrei daquilo, pesava saber que era isso o que eu causava nas pessoas.
E esqueci completamente.
Até aquele dia, até o dia que ele entrou pela porta, até o dia que ele me fitou incessantemente.
Até o dia em que me vi nos olhos daquele garoto de novo, eu vi nos olhos daquele homem, a menina que ele desprezou com tanta frieza, e vi a mulher que ela se tornou.
Eu tive mais uma vez a certeza de quem sou, eu não tinha mais aquela insegurança de acreditar que eu não merecia um cara bonito, que um cara poderia me tratar daquele jeito. Vi que sou uma mulher incrível, vi que ele se arrependia por não ter visto nada disso antes.
Eu me sinto aliviada hoje, com pesar de ver aquela mulher tão cansada seguindo aquele homem, ela talvez tenha se enganado como eu, se deslumbrado com uma embalagem tão bonita, ele a deixou pra trás com a mesma facilidade que fez comigo a 10 anos atrás.
Ele não mudou nada.
Eu sim.

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